O ilusionista



Criamos nossas próprias ilusões.

No futuro as coisas serão melhores.

Ledo engano.

A natureza humana, aquilo que está em nosso DNA comportamental, é imutável.

Não sou muito fã de ditados clichês, mas alguns são pontuais e precisos.

O lobo perde o pelo, mas não perde o vício.

Não adianta nos iludirmos com as pessoas.

Nem com nós mesmos.

Muito menos com nós mesmos.

Muitas vezes damos um passo a mais com a esperança de que isso tornará a caminhada melhor.

Não.

O que foi ruim, foi. Passado, escrito e imutável.

E chance quase zero de uma escolha fazer com que o caminho seja melhor.

Areia movediça.

Quanto mais se mexe, mais afunda.

Sorte de quem percebe e age antes de estar atolado demais.

Isso demanda autoconhecimento, que nem sempre acompanha o ser humano no momento que escolhas são necessárias.

Na areia movediça, quando o tronco está livre ainda, é possível tentar manobras para sair.

Pedir ajuda.

Porém quando o pescoço já está imerso, braços atados, provavelmente nem milagre.

Milagre?

Qual a diferença entre uma pessoa realista e uma pessimista?

Realista é dito como aquele que lida com o que se apresenta diante de si, real.

Pessimista aquele que espera sempre o pior, o por vezes acaba atraindo isso.

Diferença literal apenas.

Ter razão não significa ganhar.

Ganhar não significa vencer.

Tudo é relativo e essa relatividade é comandada por nosso gerenciamento de ilusões.

Nós gerimos como digerimos o que acontece.

Não importa o que acontece nem como acontece.

E sim o que fazemos com o que acontece.

Podemos nos iludir que está tudo bem, que vai melhorar e etc.

Só isso.

Mas na verdade sabemos (e fazemos de conta que não) que isso não é real.

A dor insuportável para um é o prazer de outros.

Um iceberg será sempre um iceberg.

Enquanto não derreter e passar a fazer parte do mar ele cumprirá seu papel.

Duro tal qual pedra.

Frio tal qual somente ele pode ser.

Quem inadvertidamente tocar sua embarcação nele enfrentará sérios problemas.

Provavelmente naufragará.

Se não de imediato, após lutar em vão.

Simples assim.

A vida como ela é, já dizia Nelson Rodrigues.


Cada um com seu motivo


Hoje entendo.

Nunca fui fã de filmes e séries com apelo totalmente futurista e apoiado ao extremo na ficção.

Ao contrário, sempre tive relativa aversão.

Desde muito cedo cultivei esse comportamento.

Na minha adolescência assistia muitos filmes.

Raros os dias que não ia locar um VHS.

Um Sonho de Liberdade, Seven, Sociedade dos Poetas Mortos e por aí vai.

Na contramão da minha geração, que até hoje é frequentadora assídua dos cinemas quando por lá pintam Vingadores e companhia.

Não entendia isso.

Por que essa febre pelo claramente irreal?

Não que os filmes que citei acima fossem cópia da vida, possíveis.

Mas o apelo é outro.

Eis que o tempo passa.

E hoje, as vésperas dos meus 36, meu comportamento é outro.

Acabo de assistir a trilogia de Jogos Vorazes.

E me decidi por a partir de agora me ater mais nesse tipo de obra.

Acreditar no subconsciente que Katniss existe.

Cada um tem o seu motivo.

Quanto mais submerso nesse universo fictício, mais longe da realidade.

Em novembro Mockingjay, parte 2.

Que venham tantos outros.

A fuga continua.


#somostodosratos


Na cultura contemporânea temos simpatia pelos ratos.

Muitos nos acompanham com suas histórias desde a nossa infância.

Desenhos e filmes são palco dessas doces criaturas, mocinhos e protagonistas, em sua maioria.

Missão difícil encontrar alguém que não conheça ao menos um da lista abaixo:

  • Topo Gigio
  • Super Mouse
  • Mestre Splinter
  • Comichão
  • Hamtaro
  • Jerry
  • Pikachu
  • Mickey Mouse
  • Rémy, de Ratatouille
  • Stuart Little
  • Pinky e Cérebro

A lista vai longe.

Cada um com seu perfil.

Porém sempre algo em comum.

Grandes aventuras, histórias empolgantes.

Por mais estranho que pareça, por vezes podemos ter desejado ser um deles nessas aventuras.

Ilusão.

O mundo do faz de conta sempre encanta.

A vida real não.

Ser adulto é muito chato.

Não pra todos, #fato.

Para os demais, a vida de rato parece estar presente no cotidiano.

Infelizmente não como os ilustres e até invejados citados acima.

Uma legião muito maior representa a classe.

Muito mais útil que os pares da ficção.

Porém sem o mesmo glamour e reconhecimento.

Os essenciais ratos de laboratório.

São fundamentais para a população estar no patamar atual.

Sem eles não estaríamos aqui.

Ao menos não dessa maneira.

Fáceis de manipular, se reproduzem e atingem a maturidade rapidamente.

As características acima foram fundamentais na escolha da raça para ser usada de cobaia pelo ser humano.

Trabalham para atingir seu propósito.

Fazem o que se espera deles.

Dão a vida por isso.

Sem recompensa.

Sem valorização.

Descartados e substituídos quando convir.

Sim.

Vida de rato.

Sem superpoderes e pompa.

É assim a vida.

Somos todos ratos.

Alguns espertos, estrelas, sabichões, famosos, ardilosos.

Outros, cobaias.

Cada um sabe onde se encaixa.

Por opção, imposição ou escolha.

#somostodosratos


Era uma vez?


Grande parte dos contos de fadas e fábulas começam com o inesquecível 'Era uma vez'.

O herói ou heroína enfrenta grandes obstáculos antes de triunfar no final.

Após a marcante introdução e o desenrolar mirabolante do enredo, o bem triunfa e o que motivou o 'Era uma vez' não mais ocorre.

Quem dera o mundo real copiasse o faz de conta.

Não.

O 'Era uma vez' na verdade se torna 'É toda vez', 'Como sempre' ou qualquer outra trágica variação.

Rotina de negação.

Porém o faz de conta se faz presente também, a cada segundo.

Fazemos de conta um monte de coisa.

Que está tudo bem, por exemplo.

Assim como os artistas em suas complexas animações, também criamos coisas incríveis.

Sorrisos mascaram a realidade, o tempo todo.

Uma grande animação pode demorar meses e até anos para ser finalizada.

Muitos de nós fazemos isso pela vida toda.

Com nossas próprias vidas.

Nada de Buzz Lightyear, Woody, Shrek ou Fiona.

E sim João, Maria, Pedro, Paula.

Sem final feliz.

Mas pior que isso, sem final.

Por enquanto.



Perdeu, playboy


Aprendemos com o passar dos anos que muitas coisas são imutáveis.

De nada adianta assistir o VT de um jogo esperando um resultado diferente do ocorrido.

Ou rever o filme ansiando que dessa vez a mocinha passe ilesa pelo calvário a que foi submetida.

Rei morto, rei posto.

Existe uma variação de um dito popular que gosto muito.

Na verdade não gosto, mas acho muito útil.

Água mole em pedra dura, tanto bate até que cansa.

Isso contradiz a famosa Terceira Lei de Newton.

Por definição da Lei, para toda interação, na forma de força, que um corpo A aplica sobre um corpo B, dele A irá receber uma força de mesma direção, intensidade e sentido oposto.

Na verdade meu ponto não contradiz de fato a Lei.

É uma figura de linguagem.

O ponto é que as vezes B está em uma posição relutante de inércia tão absoluta que toda força dispendida por A volta contra si mesmo.

Nesse caso o efeito se inverte e ao invés de B se mover, quem se move é A, na direção oposta a B.

E isso me remete a outra variação de outro dito popular.

Quem com ferro fere, nem sempre será ferido.

Certa vez me disseram que justiça não existe.

Que é questão de chegar e pegar.

Ou seja, merecimento e recompensa não caminham juntos.

Que se colocar em posição de vantagem, mesmo sem o devido merecimento, é algo natural.

Palavras ditas de onde vieram chegaram a me surpreender.

Como explicando o fato de que pessoas próximas tirarem vantagens de determinadas situações está correto.

Azar do camelo que assim nasceu.

Choca, mas a verdade é muito melhor.

Jogar sabendo as regras, mesmo que injustas, é melhor do que jogar sem saber as regras.



Perdeu, playboy.

Pena que nesse caso o playboy...