Equação da Importância


Para o garçom aquela pode ser apenas mais uma das milhares de refeições que ele irá servir em sua vida.

Talvez a centésima naquele dia.

O cliente pode estar acostumado e ser aquela apenas mais uma refeição.

Ou não.

Pode ser a única, resultado de muito esforço e muitas reservas.

Nesse caso a importância que A dá para a situação pode ser totalmente diferente que B anseia.

Relevância.

Grande valor.

Quantia; preço; custo; consideração; interesse; autoridade; prestígio; influência.

Uma equação é uma afirmação que estabelece uma igualdade entre duas expressões matemáticas.

Resolver uma equação é encontrar todos os valores possíveis para a incógnita que tornem a igualdade verdadeira.

E como tornar a variável importância igual, tanto para A quanto para B?

Tarefa mais difícil com equações com mais de uma incógnita.

O ser humano por si só já é uma incógnita.

Seu modo de pensar, agir, ou como lidar com o que pode ser importante para o outro e banal para si próprio é individual e obscuro.

Remete às origens.

Como o caráter foi formado.

Capacidade de entrega e abdicação.

A resposta parece ser uma equação do quinto grau ou equação quíntica.

Por definição, resolver a equação do quinto grau significa encontrar as suas raízes.

Métodos para achar soluções aproximadas são indicados e possivelmente a única alternativa.

Não exata.

Mas claro que a questão não é matemática.

Certamente nem Sigsmund Schlomo Freud explica.


A grandiosidade da insignificância

A vida deve ser valorizada ao extremo.

Devemos planejar, nos preparar, almejar o melhor, garantir o amanhã.

Balela.

Conversa fiada.

Vida não é nada.

O segundo tem tanta importância quanto décadas.

Um singular momento, intempestivo, pode ceifar a melhor e mais perfeita perspectiva.

Ontem ela sonhava acordada sobre como seria ocupar o posto de Primeira-dama.

Hoje ela lida com os preparativos de um sepultamento.

Conheço essa sensação.

Sentimento em queda livre.

Vertigem.

Triste.

Muitos sucumbem.

Compreensível.

Voltando aos grãos de areia no deserto, nós.

Tragédias como a ocorrida com Campos ou as que acontecem aos milhões todos os dias provam que nada somos, ou que somos nada.

Não importa a suposta retidão comportamental.

Não importa se o legado será imenso.

Duas coisas são irrefutáveis.

A primeira diz respeito à nossa pequenez.

E a segunda é o que chamo de efeito pós-vida.

A morte enaltece qualidades e dizima defeitos.

Vide lamentações aos milhões sobre Campos no Facebook.

90% das pessoas sequer sabem de que cidade ele foi prefeito, qual estado ele governou ou sequer seu partido político.

Mas, enfim, assunto pra outras lamúrias, futuras, e espero não longínquas.

Suntuosidade

Ferimentos de Guerra
Facas de serra
Nem tudo se cria
Se busca, luta, chora
Terra fria

Solidão no tumulto
Ao lado, um vulto
Repleto
Preenchido por um vazio
Completo

Inércia assumida
Sem busca ou vida
Por fim o início
Princípio do espaço
À frente, isso?
Nó, não laço

Tartaruga ágil
Crocodilo frágil
Ardiloso beija-flor
Sereno coelho
Só, e o espelho


O coelho e a raposa


O coelho e a raposa moravam no mesmo prédio.

Vizinhos de longa data, quase nunca trocavam mais de duas ou três palavras.

A raposa ostentava um ar de soberba, sem olhar nos olhos do coelho e dos demais, sem se importar, na maioria das vezes, com a presença do adorador de cenouras ou dos outros 'pulguentos'.

Exceção feita em situações que a raposa precisou, como por exemplo, para segurar a porta do elevador, ajudar com as compras, ...

Certo dia a raposa foi vista pelo coelho em situação embaraçosa.

Por mais que tentasse esconder seu comportamento em público, raposa é raposa.

Sua fama não é à toa.

O problema foi o coelho ter sabido do ocorrido.

A raposa se viu desconfortável.

Aquele que pra ela poderia não existir, exceto em momentos específicos, poderia complicar sua vida.

O que fazer?

Teria que conversar com o orelhudo.

Exigir sua discrição.

Ameaça-lo sem que ele percebesse.

No dia seguinte o coelho cansado chega do trabalho.

Ladina raposa parecia esperá-lo.

Conhecendo a raposa, o coelhinho fez um cumprimento padrão, baixou a cabeça e foi em direção à sua toca.

De repente o coelho arregala os olhos!

A raposa responde seu cumprimento.

- ??????, pensou o coelho.

- Coelho, precisamos conversar. Podemos ir até minha caverna?

Rabinho entre as pernas, lá vai o coelho.

Moral da história.

Não, nessa história não tem moral.

Um por se achar e se impor por sua posição superior na hierarquia animal.

O outro por aceitar.


Maleita seletiva


Brucutus.

Carregadores de piano.

Adjetivos diversos para ilustrar as mesmas características básicas.

Avidez física, humildade e doação para o coletivo.

Entrega sem medir esforços para um objetivo maior e comum.

Sem vaidade ou narcisismo.

Nem se preocupar com espelho.

Bunda foi feita pra ralar.

Perna pra correr.

Objetivo pra se alcançar.

Nos quadrinhos, sempre ou quase sempre, os heróis têm seus antagonistas.

Como ilustrado em O Corpo Fechado, de M. Night Shyamalan, um aficionado leitor de quadrinhos que sofre com problemas e é praticamente 'feito de vidro' passa a vida buscando seu antagonista, alguém 'inquebrável'.

É assim a vida.

Contabilidade básica.

Todo débito tem seu crédito.

Entrou em uma conta, saiu de outra.

Voltando ao esporte e a vida, aquele que nada faz para o coletivo se transforma com a bola nos pés.

A maleita dá espaço a atividade intensa.

Olhos no telão, cabelo arrumado para os flashes.

Bola perdida ou lance findado.

Tudo se vai.

De volta o 'couch potato'.

Mãos na cintura esperando os peões de obra fazerem o trabalho sujo.

Controle na mão, deitado no sofá, zapeando.

Se tem alguém relaxando sendo massageado, alguém está trabalhando fazendo a massagem.

Se tem esperto, tem trouxa.

Lei da vida.

Rocha estava errado.

Quem quer rir não basta fazer rir.

Quem nasceu pra palhaço nunca será plateia.