O coelho e a raposa


O coelho e a raposa moravam no mesmo prédio.

Vizinhos de longa data, quase nunca trocavam mais de duas ou três palavras.

A raposa ostentava um ar de soberba, sem olhar nos olhos do coelho e dos demais, sem se importar, na maioria das vezes, com a presença do adorador de cenouras ou dos outros 'pulguentos'.

Exceção feita em situações que a raposa precisou, como por exemplo, para segurar a porta do elevador, ajudar com as compras, ...

Certo dia a raposa foi vista pelo coelho em situação embaraçosa.

Por mais que tentasse esconder seu comportamento em público, raposa é raposa.

Sua fama não é à toa.

O problema foi o coelho ter sabido do ocorrido.

A raposa se viu desconfortável.

Aquele que pra ela poderia não existir, exceto em momentos específicos, poderia complicar sua vida.

O que fazer?

Teria que conversar com o orelhudo.

Exigir sua discrição.

Ameaça-lo sem que ele percebesse.

No dia seguinte o coelho cansado chega do trabalho.

Ladina raposa parecia esperá-lo.

Conhecendo a raposa, o coelhinho fez um cumprimento padrão, baixou a cabeça e foi em direção à sua toca.

De repente o coelho arregala os olhos!

A raposa responde seu cumprimento.

- ??????, pensou o coelho.

- Coelho, precisamos conversar. Podemos ir até minha caverna?

Rabinho entre as pernas, lá vai o coelho.

Moral da história.

Não, nessa história não tem moral.

Um por se achar e se impor por sua posição superior na hierarquia animal.

O outro por aceitar.


Maleita seletiva


Brucutus.

Carregadores de piano.

Adjetivos diversos para ilustrar as mesmas características básicas.

Avidez física, humildade e doação para o coletivo.

Entrega sem medir esforços para um objetivo maior e comum.

Sem vaidade ou narcisismo.

Nem se preocupar com espelho.

Bunda foi feita pra ralar.

Perna pra correr.

Objetivo pra se alcançar.

Nos quadrinhos, sempre ou quase sempre, os heróis têm seus antagonistas.

Como ilustrado em O Corpo Fechado, de M. Night Shyamalan, um aficionado leitor de quadrinhos que sofre com problemas e é praticamente 'feito de vidro' passa a vida buscando seu antagonista, alguém 'inquebrável'.

É assim a vida.

Contabilidade básica.

Todo débito tem seu crédito.

Entrou em uma conta, saiu de outra.

Voltando ao esporte e a vida, aquele que nada faz para o coletivo se transforma com a bola nos pés.

A maleita dá espaço a atividade intensa.

Olhos no telão, cabelo arrumado para os flashes.

Bola perdida ou lance findado.

Tudo se vai.

De volta o 'couch potato'.

Mãos na cintura esperando os peões de obra fazerem o trabalho sujo.

Controle na mão, deitado no sofá, zapeando.

Se tem alguém relaxando sendo massageado, alguém está trabalhando fazendo a massagem.

Se tem esperto, tem trouxa.

Lei da vida.

Rocha estava errado.

Quem quer rir não basta fazer rir.

Quem nasceu pra palhaço nunca será plateia.

O respeito e a muleta


Era uma vez uma muleta.

Apoiava com firmeza quem dela necessitava.

Útil e cumprindo com retidão seu papel.

Dias, meses e anos se passavam.

Ela continuava lá.

Fiel a seu propósito: ajudar.

Muitos se utilizavam dela sem precisar de fato.

Não importa.

Necessitados ou folgados.

A muleta estava lá, quando e onde precisassem.

Dia, noite, perto, longe.

Certo dia, de tanto uso, a muleta precisou de um reparo.

Seu dono de ocasião, que muito se sustentou sobre ela, não pensou duas vezes.

É hora de trocar.

Essa muleta não serve mais.

Pra que reparar algo que tanto me serviu se posso ter uma nova?

Golpeou violentamente o chão com a muleta.

Destroçada, foi para o lixo.

Moral da história.

Quem mais se apoia em você não titubeará em lhe substituir.

Vampiro suga o sangue e busca novo pescoço quando a fonte seca.

O respeito?

Ah, o respeito.

Não vi.

A importância de um belo rabo


A cauda dos pavões gerou o interesse de várias culturas, pela sua exuberância de cores e beleza das penas.

No topo de cada fileira de penas do pavão você verá um ocelo redondo e brilhante, ou um pequeno olho.

Chama-se pavão a aves dos géneros Pavo e Afropavo da família dos faisões.

Os pavões preferem alimentar-se de insetos e outros pequenos invertebrados, mas também comem sementes, folhas e pétalas.

Os pavões exibem um complicado ritual de acasalamento, do qual a cauda extravagante do macho teria um papel principal.

As características da cauda colorida, que chega a ter dois metros de comprimento e pode ser aberta como um leque, não têm qualquer utilidade quotidiana para o animal e seriam um exemplo de seleção sexual.

Podemos fazer analogia importante com o ser humano a partir do comportamento do pavão.

Nos zoológicos os pavões geralmente ficam soltos, transitam entre os visitantes.

Geralmente não são perigosos no contato com o ser humano.

Não demandam cuidados especiais.

Não é um animal que normalmente adultos e crianças saem de casa para contemplar.

Leões, elefantes, girafas e pinguins, por exemplo, são sempre citados nas conversas prévias às visitas aos zoológicos e parques.

Esses, porém tem um comportamento em sua maioria discreto.

Ficam separados do público em jaulas.

De lá não saem pra nada.

Ao contrário do pavão, que goza liberdade extrema.

Parece que o pavão sabe da predileção dos visitantes para seus trancafiados companheiros.

Seu comportamento insinua isso.

Faz questão de andar entre as pessoas, principalmente as crianças.

Elas os perseguem, como se fora cachorros.

Quando não estão entretendo o público infantil usam outro artifício para ter a atenção para si.

Abre completamente sua cauda, colorida e reluzente.

Domina o ambiente e é impossível não ser notado.

Flashes se voltam para ele.

Câmeras fotográficas e smartphones miram e disparam em sintonia o 'posudo' animal.

Dono da situação.

Mostra que atitude é mais relevante do que importância.

Não é o rei da selva, nem vem de congeladas terras distantes ou pesa toneladas.

É recorrente por aqui.

Longe de qualquer ameaça de extinção.

Pode ser visto aos montes.

Vende seu peixe com propriedade.

Chama atenção.

Faz alarde.

Muito por nada?

Pode ser.

Mas não importa.

Enquanto excêntricas espécies em extinção ficam carrancudas dentro de suas gaiolas, o pavão está lá.

Enquanto animais trabalhadores estão em suas atividades diárias, rotina cansativa e necessária, garantindo a existência das espécies, incluindo o próprio pavão, ele está lá.

Cauda esvoaçante em envergadura extrema.

É agora o rei do zoológico.

Não de fato nem de direito, mas de ocasião.

Por convencimento.

Mostra o verdadeiro poder de um belo rabo.


Tempos de Guerra


Confrontos, independente de sua dimensão, podem ter seu início em pequenos e recorrentes acontecimentos.

Banalidades também são ponto de partida de conflitos.

Idiotas com poder demais ou influência, também.

Ou ainda questões, em tese, importantes, como armamento nuclear.

Ou tudo isso junto.

Pouco importa.

Depois de deflagrado, um conflito pode ser devastador e deixará, no mínimo, consequências perpétuas em todos os envolvidos.

Quem vive nesse cenário tem seu comportamento completamente modificado.


Mesmo quem não está intimamente ligado às ditas causas tem sua rotina atropelada.

Vira refém do medo.

Evita aparições públicas.

Refugiado de guerra em sua própria casa.

Mesas e sofás viram trincheiras.

Quartos agora são bunkers.


Já quem defende ou ataca um território se torna um ciborgue.

Sangue nos olhos 100% do tempo.

Pronto a disparar, armas ou palavras, sempre que algo lhe chame a atenção, negativamente.

Um vulto vira alvo.

Um alvo nem sempre é inimigo, no entanto.

Baixas desnecessárias, injustas e cruéis.


Intempéries de tempos de guerra.


Estrategistas são peças essenciais e decisivas nesse complexo tabuleiro.

Um movimento correto pode ter muito mais relevância e veemência do que um ataque incisivo, porém mal planejado.

Força irá sucumbir diante do pensamento, sempre.


Porém mesmo os melhores estrategistas não conseguem garantir sucesso.

Apesar de usar o cérebro privilegiado para antever ações inimigas ou calcular corretamente um avanço ou retrocesso, existe uma situação difícil de prever e preparar.


Fogo amigo.

A mais perfeita estratégia será aniquilada se seu aliado, suposta parte integrante do seu plano, sabotar sua execução.

Nunca se espera que quem está ao seu lado, usufruindo de sua estrutura e partilhando seus pensamentos será quem irá te virar as costas e acabar com seus sonhos, facilitando a vida de seus inimigos.

Quando isso ocorre é sinal claro que a guerra na verdade nunca deveria ter sido iniciada.

Se quem era parte dela desde o princípio na verdade nunca esteve a seu lado, game over.

Mais que derrotado, você foi enganado.

Toda luta foi em vão.

A guerra pouco importa.

Os danos já foram feitos e são irreversíveis.

Bater em retirada é o mínimo, única opção.

Hora de repensar os aliados.

Ou repensar algo mais profundo, a vida.

Lutar talvez não seja mais necessário.

Se passou a vida lutando ao lado de inimigos íntimos, imagine a quantidade de escolhas equivocadas e injustiças que deve ter cometido, por influência proposital ou simples convivência.


Tempos de Guerra...

Deveriam ser evitados, mas podem ser os únicos momentos que a verdade terá oportunidade de ser apreciada, nua e crua, sem vestes ou maquiagem para camuflá-la.